Eu tinha um tio que vou chamar aqui apenas de Tio “C”. Tio C era um sujeito legal. Guardo dele uma lembrança carinhosa. Mas havia alguma coisa no mundo de Tio C que, para mim, quando criança, era maravilhosamente assustadora. Talvez nem fosse ele. Talvez fosse a casa. Ele era o clássico tio solteirão ... uma espécie de contraparte masculina daquela figura quase folclórica da “tia dos gatos”. Só que, em vez de dezoito gatos, havia coleções. Hoje talvez chamássemos alguém assim de über nerd. Mas Tio C veio de uma época em que ser nerd exigia espaço físico. Ele colecionava filmes.
Filmes de verdade. Em rolos. Acho que eram 8 mm. Talvez alguns fossem Super 8. Eu era pequeno demais para prestar atenção nesse tipo de detalhe. O que lembro são das latas, dos rolos, do projetor e daqueles filmes antigos que ele guardava. Tinha O Gabinete do Dr. Caligari. Lembro também de um que, na minha memória, se chama O Homem Cobra. E havia vários outros, principalmente filmes de horror. Mas minha lembrança deles não é somente visual.
Eles tinham cheiro. Cheiravam à casa de Tio C. Cheiravam a poeira, móvel velho, coisa guardada e, principalmente, naftalina. Décadas depois, quando vejo certos filmes antigos ... aquele estilo preto e branco, decadente, caricato, cheio de cemitérios, casarões, sombras e gente estranha ... alguma parte do meu cérebro ainda sente aquele cheiro. É curioso porque filmes não têm cheiro. Mas os meus tinham. Talvez por isso eu tenha dificuldade de explicar o que encontro em certos filmes. Não é apenas a fotografia, o baixo orçamento. Existe neles um cheiro de coisa velha. E não digo isso como crítica. É quase o contrário. É o cheiro de alguma coisa encontrada no fundo de um armário que permaneceu fechado durante vinte anos. Uma caixa que talvez fosse melhor não abrir. Naturalmente, você abre.
Tio C tinha um jeito muito particular de estar no mundo. Hoje talvez alguém tentasse encontrar um nome para aquilo. Talvez falasse em alguma condição, algum transtorno, algum lugar dentro de um espectro. Eu não sei. E prefiro não lhe dar, décadas depois, um diagnóstico que ele nunca recebeu. Para mim, ele era simplesmente Tio C. Um homem bastante independente, com seus hábitos, suas dificuldades, seus interesses e aquele universo inteiro de coisas que pareciam existir apenas ao redor dele. Ele fazia parte de uma espécie de nerd que existia antes de a palavra “nerd” ganhar o significado que tem hoje. E talvez eu deva a pessoas como ele parte da minha curiosidade pelas coisas estranhas. Essas pessoas guardavam pequenos mundos. Antes da internet, encontrar um filme obscuro, um livro esquisito ou uma revista antiga não era questão de digitar algumas palavras numa busca. Alguém precisava ter encontrado aquilo antes, comprado, guardado e conservado durante anos. A coleção ocupava espaço. Tinha peso. Tinha cheiro. Envelhecia junto com o dono.
E a casa, aos poucos, virava parte da coleção. Talvez toda família tivesse alguém assim. Aquele tio que conhecia coisas que ninguém mais conhecia e guardava objetos cuja importância uma criança não conseguia compreender. Para mim, Tio C era um desses guardiões. Só muito mais tarde comecei a perceber que algumas coisas que eu via nele como simples características de um “tio solteirão” carregavam histórias que uma criança não tinha como compreender. Tio C não havia necessariamente escolhido ficar sozinho. Ele queria encontrar alguém. Não conseguiu. E isso hoje me toca de uma maneira que não me tocava quando eu era menino. Cada pessoa tem o direito de escolher com quem deseja estar, naturalmente. Ninguém deve amor ou companhia a ninguém. Mas existe também a outra pessoa. Aquela que gostaria de ser escolhida e nunca é. E essa dor também é real. Eu mesmo conheci a rejeição. Talvez tenha tido mais facilidade, mais oportunidades ou simplesmente tenha insistido por mais tempo até encontrar reciprocidade. Nem todo mundo encontra. E isso não significa necessariamente que haja alguma grande falha escondida naquela pessoa. Às vezes o mundo simplesmente é mais difícil para alguns. Não sei exatamente o que Tio C sentia sobre isso. Não quero inventar pensamentos para alguém que já não está aqui para me corrigir. Talvez estivesse contente com muitas partes da vida que construiu. Provavelmente estava. Eu estaria...
Mas hoje sei que havia também coisas que ele desejou e que não aconteceram. Quando criança, eu não enxergava esse homem. Via o personagem. O tio solteirão. A casa antiga. A dentadura. Os objetos estranhos. Os filmes. A naftalina. Adulto, percebo que por trás daquele personagem havia simplesmente uma pessoa tentando viver a vida com as cartas que recebeu. E talvez seja isso que mais mudou na minha lembrança dele. Hoje sei que Tio C não era assustador. Eu gostava dele...
... Assustador ... e fascinante...
...era aquele pequeno universo que existia ao redor dele. Quando eu era criança, parecia que a casa de Tio C continha portas. Atrás de uma estava o Dr. Caligari. Atrás de outra, o Homem Cobra. E atrás de outra, sabe-se lá o quê. Era só apagar a luz, ligar o projetor e fazer o rolo girar. Então os mortos começavam a andar novamente pela parede. Talvez por isso, até hoje, certos filmes antigos me tragam uma sensação que vai muito além da imagem. Eles me trazem de volta uma casa. Uma poltrona. Um projetor. Um homem peculiar que guardava mundos dentro de latas. E, por algum motivo, o horror ficou para sempre, na minha memória, com cheiro de poeira e naftalina. Hoje esse cheiro também tem um pouco de saudade.
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