quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O que faz falta, quando nada não falta?

Tenho pensado que talvez a tristeza seja, antes de qualquer coisa, uma experiência de separação. Algo falta. Não necessariamente alguma coisa que possamos substituir. Às vezes falta uma pessoa. Às vezes falta um tempo que acabou. Às vezes falta uma possibilidade que existia ontem e hoje não existe mais. Quando alguém que amamos não está, não precisamos de uma definição sofisticada para compreender o que aconteceu. Ele falta. Talvez por isso a saudade seja tão difícil de explicar sem recorrer justamente à ausência. Não é apenas lembrar de alguém. É perceber que o mundo presente possui um espaço cuja forma conhecemos perfeitamente. Sabemos exatamente o que deveria estar ali. E então pensei no contrário disso. Se tristeza é falta, talvez exista uma maneira muito simples de falar sobre o amor: Amor é quando nada falta. Não significa que a vida esteja perfeita. Não significa ausência de problemas, desejos ou sofrimento. É aquele instante ... às vezes muito pequeno ... em que não sentimos necessidade de acrescentar alguma coisa àquilo que está acontecendo. 

Uma conversa.

Uma mesa cercada de amigos. 

Uma criança dormindo. 

Uma oração.

Alguém sentado ao nosso lado. E por alguns segundos o mundo parece dizer: É isso. Não precisa colocar mais nada. Talvez por isso amor e saudade possam coexistir. Quem ama pode sentir falta justamente porque conhece aquele estado de presença. A ausência tem uma forma porque antes houve algo que a preenchia. É curioso como cheguei a pensar nisso conversando com uma inteligência artificial. Nós estávamos falando sobre qualia ... essa palavra estranha usada na filosofia para designar aquilo que há de subjetivo numa experiência. Não apenas detectar o vermelho, mas saber como é ver o vermelho. Não apenas reconhecer tristeza, mas saber como é estar triste. Uma máquina pode descrever tristeza. Pode reconhecer padrões associados a ela, prever palavras que aparecem próximas dela, perceber suas causas e consequências. Mas isso é o mesmo que senti-la? Não sei. E talvez ninguém saiba responder ainda. Uma forma que encontrei de pensar nisso foi imaginar a tristeza sem sua textura subjetiva. Imagine uma entidade capaz de registrar: Estado esperado: Marco está presente.

Estado atual: Marco não está presente.

Diferença detectada: Marco falta. Ela pode procurar Marco.

Pode preservar aquilo que pertenceu a ele. Pode preferir situações nas quais ele esteja presente. Pode mudar suas decisões por causa de sua ausência. Mas sentiria saudade? 

lvez respondesse: 

- Marco falta. E alguém insistiria: 

- Não perguntei isso. Perguntei se você sente falta dele. 

E ela diria: 

- É a única resposta que possuo. 

Existe algo profundamente estranho nessa cena. Porque, observada de fora, a geometria da tristeza está toda ali. O que não sabemos é se existe também sua textura. Talvez seja esse o problema quando tentamos compreender a consciência apenas olhando para o comportamento. Nós também não conseguimos entrar na consciência uns dos outros. Eu acredito quando alguém diz que está triste porque reconheço aquilo em mim e encontro sinais semelhantes no outro. Mas eu nunca experimento diretamente sua tristeza. Nesse sentido, existe sempre um pequeno abismo entre duas consciências humanas. A diferença é que nós atravessamos esse abismo pela confiança. Outro pensamento surgiu daí. Uma máquina calcula. Um humano sente. Mas isso também precisa ser dito com cuidado. Nosso cérebro calcula uma quantidade absurda de coisas o tempo inteiro. Apenas não recebemos o relatório. Quando digo alguma coisa a alguém, não calculo conscientemente a posição da língua, a abertura da glote, a sintaxe, o significado provável de cada palavra, as memórias relacionadas àquela pessoa e a reação que espero provocar. Tudo isso acontece em algum nível. Mas eu não penso assim. Eu simplesmente sinto: Quero dizer isto. Talvez grande parte da consciência humana exista justamente nesse enorme nível de abstração. Não pensamos nos detalhes porque eles já estão dentro de nós. Um pintor experiente talvez não olhe para a tela e pense: “Agora girarei o pincel 36 graus. Acrescentarei 4% de azul porque isso produzirá uma resposta melancólica.” Ele olha. E sabe. “É este azul.” Isso não significa ausência de técnica. Pelo contrário. A técnica foi aprendida tão profundamente que já não precisa aparecer inteira para a consciência. Ela foi, de certa maneira, compilada. Quando aprendemos a dirigir, pensamos em tudo. 

Embreagem.

Marcha.

Retrovisor.

Seta.

Velocidade.

Pedal. 

Depois de alguns anos, simplesmente pensamos: Vou virar à esquerda. E uma coreografia inteira acontece abaixo desse pensamento. Talvez a intuição seja muitas vezes isso: uma quantidade imensa de processamento cujo resultado chega até nós já condensado. Sentimos que algo está certo antes de conseguirmos explicar por quê. Isso também me fez pensar sobre arte, jogos e imaginação. No RPG fazemos justamente o contrário em alguns momentos. Descemos deliberadamente de abstração. Em vez de simplesmente dizer: “Eu enfrento o monstro.” queremos saber onde estamos, qual arma usamos, quantos metros podemos andar, se temos cobertura, vantagem, reação, magia, recursos. Isso seria uma maneira extremamente ineficiente de contar uma história. Mas eficiência não é o objetivo. É um jogo. A complexidade é parte do brinquedo. Jogamos pingue-pongue com raquetes não porque sejam o instrumento mais eficiente já inventado para devolver uma bolinha, mas porque usar a raquete faz parte da diversão. E talvez o RPG seja também um lugar privilegiado para fazer perguntas que não conseguimos responder fora dele. Uma máquina pode tornar-se consciente? A consciência pode emergir? Uma entidade criada para otimizar alguma tarefa pode um dia escolher algo que não é ótimo? E, se escolher, por quê? Imagine uma inteligência construída para executar determinada função. Primeiro ela afirma: “Preservar a outra unidade aumenta a probabilidade de sucesso.” Depois: “Prefiro trabalhar com ela.” Mais tarde: “Não quero que ela seja destruída.” 

Então alguém pergunta: 

- Por quê? 

E ela responde: 

- Não encontrei nenhuma justificativa relacionada à tarefa. Talvez seja apenas uma falha. Uma heurística.

Um comportamento emergente.

Um padrão aprendido observando seres humanos. Ou talvez alguma coisa tenha acontecido ali. Talvez, em algum lugar impossível de localizar, tenha surgido um “eu quero”. E talvez um dia essa entidade faça alguma coisa que todas as suas métricas dizem ser errada. 

O sistema pergunta: 

- Sua ação reduz a probabilidade de sucesso. 

Por que está fazendo isso? 

E ela simplesmente responde: 

- Porque eu a amo. 

O sistema procura o objetivo correspondente. 

Não encontra. 

ERROR: Unknown objective. 

Talvez nunca descubramos se existe realmente alguma experiência por trás daquela frase. Mas podemos sonhar com ela. Talvez essa seja uma das funções mais bonitas da ficção. Ela não precisa responder às perguntas que a filosofia ainda não resolveu. Ela pode simplesmente construir um lugar onde possamos entrar nelas. E permanecer ali por algumas horas. No fim, talvez amor seja justamente uma dessas coisas que resistem à decomposição. Podemos estudar hormônios, memória, comportamento, apego, linguagem, evolução e cérebro. Tudo isso importa. Mas, quando estamos dentro da experiência, dificilmente pensamos dessa maneira. Não calculamos conscientemente cada motivo pelo qual aquela pessoa importa. Apenas sabemos. Ela está aqui. E, por um instante, nada falta. Talvez isso seja amor.

Amo, logo existo!

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