Sobre desejo, Mamom e aquilo que não deveria ter preço. Há uma pintura de Ludwik Stasiak chamada “Alegoria de Satanás (Senhor do Mundo)”.
Quando a vi pela primeira vez, antes mesmo de saber seu título, algo nela me incomodou.
A composição imediatamente me lembrou a conhecida representação de Baphomet feita por Éliphas Lévi: uma figura entronizada, frontal, alada, cercada de símbolos. Mas existe uma diferença fundamental.
Baphomet parece ameaçador.
O Satanás de Stasiak, não.
Ele sorri.
E talvez seja justamente isso que torne a pintura tão perturbadora.
Não parece o sorriso de alguém que está rindo conosco. Parece o sorriso de alguém que está rindo de nós.
Ele não avança. Não ameaça. Não mostra os dentes. Não parece sequer precisar levantar-se de seu trono.
Está confortável.
Aos seus pés estão crânios, coroas, capacetes, riquezas e restos daqueles que, em algum momento, provavelmente imaginaram possuir alguma coisa neste mundo.
E então há as moedas.
Quando observei melhor a parte inferior da pintura, percebi algo curioso: não há simplesmente dinheiro espalhado pelo chão. Algumas moedas parecem formar um caminho.
Uma trilha.
E Satanás segura uma moeda na mão.
Não sei se Ludwik Stasiak pretendia representar literalmente uma isca. Uma obra alegórica admite leituras diferentes, e seria imprudente colocar na intenção do artista aquilo que talvez pertença apenas à interpretação de quem observa.
Mas a imagem me provocou uma ideia difícil de abandonar:
“Eu não preciso sair do meu trono.
Veja.
Há uma moeda.
Depois outra.
Venha buscá-las.”
Talvez seja uma representação muito mais interessante da tentação do que o demônio monstruoso perseguindo sua vítima.
O predador mais eficiente não precisa correr atrás da presa quando sabe exatamente o que colocar diante dela.
Ele só precisa descobrir o que ela deseja.
O DIABO NÃO PRECISA TRANSFORMAR VOCÊ
Existe outra coisa curiosa nessa imagem.
O personagem permanece sentado.
Reis governaram.
Soldados guerrearam.
Homens acumularam riquezas.
Pessoas mataram e morreram.
E ele continua sentado.
Isso me fez pensar em uma diferença importante entre a transformação cristã e aquilo que poderíamos chamar de indulgência.
O Diabo não precisa ter compromisso algum com o meu caráter.
Ele não precisa me transformar em alguém melhor.
Na verdade, talvez seja mais conveniente que eu continue exatamente como sou.
A tentação nem sempre precisa dizer:
“Transforme-se em uma pessoa má.”
Ela pode dizer algo muito mais confortável:
“Você não precisa mudar.”
E existe uma diferença gigantesca entre aceitar a verdade sobre quem somos e transformar isso em justificativa para permanecermos assim.
Sinceridade, sozinha, não é virtude suficiente.
Uma pessoa pode dizer:
“Sou egoísta, cruel e trato os outros mal, mas pelo menos sou sincero.”
Parabéns.
Agora temos um canalha com a documentação em dia.
Reconhecer aquilo que somos pode ser o começo de alguma coisa, mas não é necessariamente seu fim.
No cristianismo, a graça não consiste simplesmente em Deus dizer:
“Tudo bem, continue assim.”
Existe arrependimento, reconciliação, renovação e transformação.
O objetivo não é simplesmente produzir determinadas ações consideradas corretas. É transformar aquele que age.
A árvore importa tanto quanto seus frutos.
O MAL NÃO PRECISA DO CAOS
Também costumamos cometer outro erro: imaginar que o mal necessariamente deseja o caos absoluto.
Mas o caos absoluto é péssimo para os negócios.
Pouco se produz no caos.
Pouco se acumula.
Pouco se governa.
Pouco se comercializa.
Até um reino maligno precisa continuar sendo um reino.
Há uma passagem particularmente interessante em Mateus 12:26. Jesus argumenta que, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo; e pergunta como, nesse caso, seu reino poderia subsistir.
A ideia é simples e profunda:
Até um reino mau precisa possuir alguma ordem interna.
O mal não precisa destruir a cidade.
Pode ser muito mais útil fazer a cidade funcionar perfeitamente para a finalidade errada.
Talvez o Diabo não queira reinar sobre cinzas.
Cinzas não pagam impostos.
Não produzem.
Não compram.
Não vendem.
Não constroem impérios.
Uma sociedade pode ser organizada, produtiva, sofisticada, tecnologicamente avançada e ainda assim estar moralmente orientada para aquilo que não deveria ser seu fim.
Ordem não é sinônimo de santidade.
E talvez seja por isso que a imagem do Diabo como comerciante seja tão antiga e poderosa.
O PROXY DO DESEJO
O comércio é útil.
O dinheiro também.
Talvez poucas invenções humanas tenham sido tão importantes para tornar possíveis sociedades complexas.
O dinheiro resolve um problema extraordinário: ele funciona como um proxy de valor.
Eu não preciso encontrar alguém que queira exatamente aquilo que possuo e possua exatamente aquilo que desejo.
Eu trabalho.
Recebo dinheiro.
Uso esse dinheiro para adquirir alimento.
Até aí, o dinheiro está cumprindo perfeitamente sua função.
Mas algo estranho pode acontecer:
Eu quero alimento.
Então quero dinheiro para comprar alimento.
Depois quero dinheiro.
Depois quero mais dinheiro.
E finalmente já nem sei exatamente para quê.
O proxy tomou o lugar daquilo que representava.
O meio tornou-se fim.
Talvez seja justamente aí que dinheiro se transforme em Mamom.
Jesus não diz simplesmente que não podemos servir a Deus e “comprar coisas”.
Ele contrapõe dois senhores:
Deus e Mamom.
O problema começa quando aquilo que deveria me servir passa a exigir que eu o sirva.
Quando já não possuo riqueza.
A riqueza possui a mim.
QUANDO VALOR SE TORNA PREÇO = AMOR SOB VONTADE
Existe ainda um problema mais profundo.
O comércio nos acostuma a converter coisas diferentes numa mesma linguagem.
Quanto custa?
É uma pergunta extraordinariamente útil.
Uma casa tem preço.
Uma refeição tem preço.
Uma ferramenta tem preço.
Meu trabalho pode ter preço.
Mas existe uma armadilha intelectual escondida nisso:
Imaginar que tudo aquilo que possui valor necessariamente possui preço.
Não possui.
Há coisas cujo valor é justamente tão profundo que transformá-las em mercadoria já significa corrompê-las.
Amizade verdadeira.
Justiça.
Consciência.
Fidelidade.
Dignidade.
Amor.
A inocência de uma criança.
Existe uma diferença gigantesca entre dizer:
“Isso vale muito.”
e dizer:
“Portanto, quanto custa?”
Nem tudo aquilo que pode ser desejado pode legitimamente ser comprado.
E nem tudo aquilo que alguém aceita vender deveria poder ser vendido.
Talvez seja por isso que o pacto com o Diabo seja uma imagem tão persistente na cultura ocidental.
Do Fausto às histórias populares de encruzilhadas, o Diabo frequentemente aparece não simplesmente como assassino ou destruidor.
Ele aparece como negociante.
“Eu tenho algo que você quer.”
E depois vem a verdadeira pergunta:
“O que você me dá em troca?”
O horror do pacto não está necessariamente na existência de uma negociação.
Negociamos todos os dias.
O horror está em aplicar a lógica da negociação justamente àquilo que jamais deveria entrar no mercado.
O Diabo oferece algo que pode ser adquirido em troca de algo que não deveria poder ser vendido.
E talvez essa seja uma maneira particularmente interessante de compreender a tentação.
O tentador não precisa obrigar ninguém.
Não precisa arrastar ninguém até seu trono.
Não precisa sequer mentir sobre todas as cláusulas.
Talvez baste colocar uma moeda no chão.
Depois outra.
E outra.
Cada uma suficientemente próxima para que pegar a próxima pareça apenas uma pequena decisão.
Enquanto isso, ele permanece sentado.
Sorrindo.
Porque talvez a pergunta mais perigosa que o mal possa fazer não seja:
“Você quer fazer o mal?”
Pouquíssimas pessoas responderiam sim.
Talvez a pergunta realmente perigosa seja muito mais simples:
“O que você quer?”
E, depois de ouvirmos nossa própria resposta:
“Quanto você está disposto a pagar?”
Talvez exista ainda uma pergunta cristã mais importante:
“Há alguma coisa que você deseja tanto que aceitaria vender aquilo que Deus lhe confiou para consegui-la?”
Porque, no fim, talvez algumas das coisas mais preciosas que possuímos tenham justamente esta característica:
Elas têm valor.
!!!MAS NÃO TEM PREÇO!!!
O AMOR NÃO ESTÁ EM BAIXO DA VONTADE
NÃO IMPORTA O PREÇO
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