Há certas noites em que o mundo parece menos sólido.
Não porque suas paredes se tornem transparentes, nem porque os mortos resolvam passear entre os vivos, mas porque algumas perguntas, normalmente adormecidas, despertam antes de nós.
O último dia de outubro é uma dessas noites.
O Halloween, celebrado na véspera de Todos os Santos, carrega em seu próprio nome uma herança cristã que muitas vezes passa despercebida entre abóboras, máscaras e sepulturas cenográficas. É curioso que uma noite associada ao medo anteceda justamente uma celebração daqueles que, segundo a fé cristã, venceram a morte.
Talvez exista alguma ironia nisso.
Ou talvez a ironia seja nossa.
Séculos antes de Clive Barker imaginar suas criaturas adornadas de feridas, correntes e instrumentos de sofrimento, outros homens já haviam se retirado para os desertos, determinados a enfrentar forças que julgavam mais perigosas do que qualquer monstro.
Eram os eremitas.
Homens como Antão, que trocaram a companhia dos semelhantes pelo silêncio, pela oração e pelo combate contra as próprias paixões. O deserto não era necessariamente um esconderijo contra o mundo, mas um lugar onde o mundo interior se tornava impossível de ignorar.
Entretanto, nem todos permaneceram sozinhos.
Outros, seguindo tradições que ganharam forma particularmente com Pacômio, reuniram-se em comunidades dedicadas à disciplina espiritual, ao trabalho e à oração.
Eram os cenobitas.
A própria palavra guardava uma ideia extraordinariamente simples: viver em comum.
Enquanto o eremita buscava Deus na solidão, o cenobita O procurava também na comunhão.
Dois caminhos que, apesar das diferenças, partilhavam uma mesma convicção: a realidade humana não se esgotava naquilo que os sentidos conseguiam alcançar.
Muito tempo depois, Clive Barker recuperaria essa palavra para nomear uma ordem bastante diferente.
Em Hellraiser, os cenobitas não habitam mosteiros egípcios. Seus claustros são labirintos, seus hábitos lembram vestimentas sacerdotais deformadas, e sua ascese parece ter atravessado alguma fronteira onde prazer e sofrimento perderam seus significados habituais.
Eles são convocados por uma caixa.
A Configuração de Lamento.
Um pequeno objeto cuja geometria esconde uma passagem para uma ordem de existência aparentemente inconcebível.
E, quando perguntam quem são, oferecem uma resposta perturbadora: demônios para alguns, anjos para outros.
Há algo de profundamente inquietante nessa ambiguidade.
Afinal, o que determina se uma presença é angelical ou demoníaca? Sua aparência? Seu poder? O que provoca naquele que a contempla?
Ou sua verdadeira natureza?
Em Kult, particularmente em Divinity Lost, encontramos outra interpretação do horror. O mundo percebido é uma prisão, a realidade é uma ilusão, e poderes como o Demiurgo, os Arcontes e seus servidores participam de uma vasta arquitetura metafísica.
Os Lictors preservam uma ordem que não deve ser questionada.
A humanidade vive entre paredes que desconhece.
E aquilo que chamamos de mundo talvez seja apenas a superfície de outro.
Neil Gaiman, em Lugar Nenhum, imaginou uma Londres escondida sob a Londres conhecida. Grant Morrison, em Os Invisíveis, brincou com iniciações, conspirações, entidades e realidades que desafiam a própria definição de liberdade.
Lovecraft, por sua vez, construiu boa parte de seu horror sobre uma suspeita: talvez a humanidade seja incapaz de suportar determinadas descobertas sobre sua condição no universo.
Essas obras não possuem necessariamente a mesma cosmologia. Tampouco precisamos supor que seus autores tenham contemplado alguma realidade secreta em comum.
Mas existe um fio narrativo que as atravessa.
O mundo visível não seria tudo.
E, além dele, poderiam existir ordens, autoridades, hierarquias, interesses e conflitos que os homens sequer saberiam nomear.
Uma espécie de sociedade secreta, não necessariamente formada por humanos, cuja existência faria das nossas maiores instituições algo tão insignificante quanto uma brincadeira de crianças.
Mas será que a última autoridade encontrada seria realmente a última?
Talvez atrás de uma porta exista um corredor. Atrás do corredor, um palácio. Atrás do palácio, uma cidade. E atrás da cidade, outra realidade, com seus próprios governantes e suas próprias leis.
Uma caixa dentro de outra.
Uma boneca dentro de outra.
Uma Matrixorka.
Não importa quantas sejam abertas. A criatura que reina sobre uma delas talvez também esteja encerrada em outra.
E o senhor de um labirinto pode ser apenas um prisioneiro que recebeu as chaves de sua cela.
O problema, portanto, nunca foi apenas descobrir quem controla a caixa.
O problema é saber se existe algo que não esteja dentro de nenhuma delas.
Algo que não seja simplesmente maior.
Algo que seja de outra natureza.
O Uno.
O EU SOU.
É aqui que as semelhanças literárias começam a encontrar seus limites, e a antiga pergunta cristã retorna com uma força inesperada.
Pois, se o homem fosse apenas uma divindade esquecida, como sugere a mitologia de Kult, sua salvação consistiria em recordar aquilo que sempre foi.
Mas e se o homem nunca tivesse sido Deus?
E se sua glória não estivesse em descobrir uma divindade própria, mas em receber a presença daquele que verdadeiramente É?
Talvez sejamos vasos.
Vasos de barro.
Alguns belos, outros deformados. Alguns destinados à honra, outros associados à ira nas difíceis palavras de Paulo. Vasos rachados, frágeis, frequentemente incapazes de compreender as mãos que os moldaram.
Mas ainda vasos.
E o barro, por mais extraordinárias que sejam suas formas, não pode produzir sozinho aquilo que não possui.
Podemos somar infinitos zeros.
O resultado continuará sendo zero.
Entretanto, basta que o Uno esteja presente para que a natureza de nossa reflexão se transforme.
Paulo escreveu que carregamos um tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, não nossa.
O vaso não é o tesouro.
Mas o tesouro pode habitar o vaso.
E talvez essa seja uma das imagens mais desconcertantes de toda a fé cristã: o Criador não apenas contempla sua criação de fora. O Verbo se faz carne.
Não se limita a abrir uma passagem entre os mundos.
Entra no nosso.
Agora, imaginemos por um instante uma história narrada não pela humanidade, mas por um dos Arcontes de alguma ficção sombria.
Uma criatura habituada a dominar os homens, a administrar seus medos, a conhecer suas fraquezas e a confundir sua percepção do mundo.
Diante dela surge alguém aparentemente comum.
Um homem de carne e osso. Um vaso de barro.
Não possui correntes, símbolos impossíveis ou instrumentos de tortura. Não traz uma geometria sobrenatural nas mãos.
Entretanto, há nele algo que a criatura não consegue dominar.
Ele pertence a uma comunhão.
Não uma sociedade secreta de iniciados que aprenderam a manipular forças ocultas, mas uma comunidade cuja identidade está em Cristo.
De repente, o horror muda de lado.
Aquilo que para o homem é esperança, para seu adversário seria ameaça. Aquilo que para um é libertação, para outro significaria o fim de uma antiga autoridade.
O verdadeiro cenobita, no sentido histórico, reaparece diante do falso.
Mas agora quem contempla o monstruoso é o monstro.
Talvez seja essa a inversão mais intrigante de todas.
Paulo dizia que os cristãos são o bom perfume de Cristo. Para uns, aroma de vida; para outros, cheiro de morte.
O perfume é o mesmo.
O que muda é a relação daquele que o recebe com aquilo que ele anuncia.
Não seria difícil imaginar, numa história de horror cósmico contada do outro lado, uma legião inteira estremecendo diante de algo que nós chamaríamos simplesmente de santidade.
Um cristão verdadeiro talvez fosse uma aparição terrível para um Lictor.
Uma presença insuportável para um tirano espiritual.
Um mensageiro de uma autoridade que nenhum dos administradores do labirinto conseguiria revogar.
E tudo isso sem deixar de ser barro.
Pois o poder não seria seu.
Seria do Tesouro.
Naturalmente, esse é o terreno da alegoria, onde a ficção nos empresta monstros e labirintos para que pensemos em coisas que ela própria não pode demonstrar.
Mas a alegoria possui uma virtude: às vezes revela, por contraste, aquilo que estávamos deixando de enxergar.
Lovecraft temia o conhecimento capaz de dissolver as seguranças humanas.
João anunciou uma luz que as trevas não conseguiram vencer.
São perspectivas quase opostas diante do mistério.
Para uma delas, a descoberta pode ser insuportável.
Para a outra, a Verdade liberta.
E não deixa de ser curioso que ambas possam produzir temor.
Afinal, nem toda criatura deseja ser encontrada pela luz.
Nem toda prisão é reconhecida como prisão por quem se acostumou aos seus aposentos.
E nem toda porta aberta é recebida como libertação.
Talvez por isso a Escritura não nos convide simplesmente a procurar conhecimentos cada vez mais escondidos, como quem resolve sucessivamente caixas impossíveis.
O último livro da Bíblia chama-se Apocalipse.
Revelação.
Mas sua revelação não começa com um homem decifrando a combinação correta.
Começa com Jesus Cristo.
E, diante de um livro selado, não é um iniciado, um mago, um Arconte ou um senhor de incontáveis dimensões quem se mostra digno de abri-lo.
É o Cordeiro.
Um Cordeiro como tendo sido morto.
Eis a estranheza que nenhum labirinto parece conseguir reproduzir: a autoridade suprema se manifesta por meio daquele que foi ferido.
Não para transformar o sofrimento em prazer.
Não para fazer da dor uma finalidade.
Mas para vencer aquilo que nos aprisionava.
Há algo quase ofensivo para as concepções humanas de poder nessa imagem.
O Leão vence como Cordeiro.
O Rei usa uma coroa de espinhos.
O Criador entra na criação.
E aquele que possui as chaves da morte não precisa negociar com os carcereiros.
Ainda assim, a revelação não termina nesse encontro.
João contempla tronos, anjos, taças, selos, trombetas, criaturas e potências que parecem exceder qualquer imaginação.
O livro inteiro está repleto de coisas que poderiam habitar um pesadelo cósmico.
Entretanto, os horrores não são seu destino.
A narrativa segue adiante.
Além das feras.
Além dos reis.
Além da morte.
Além do último julgamento.
E então aparece uma cidade.
Não uma Metropolis oculta, governada por autoridades obscuras.
Não um labirinto de Leviatã.
Não outra caixa esperando ser aberta.
Uma cidade preparada como uma noiva adornada para seu esposo.
A Nova Jerusalém.
E aqui, finalmente, as imagens começam a se reunir.
O eremita procurava Deus no deserto.
O cenobita procurava Deus em comunhão.
O homem da ficção atravessava labirintos em busca de experiências ou de sua própria natureza perdida.
Mas o cristão aguarda uma comunhão na qual já não será necessário procurar uma passagem.
Pois Deus habitará com os homens.
Aquele que prometeu fazer do vencedor uma coluna no templo de seu Deus, de onde nunca mais sairia, também revelou uma cidade em que João não encontrou templo algum.
Porque o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o seu templo.
Não há contradição na esperança.
A coluna permanece porque a presença permanece.
O pertencimento não depende mais de paredes.
Nem de fechaduras.
Nem de caixas.
E há uma última imagem.
Talvez a mais misteriosa de todas.
Durante tanto tempo falamos de véus.
O véu da realidade.
O véu da ilusão.
O véu entre os vivos e os mortos.
O véu que esconderia as terríveis engrenagens de uma criação que não conseguimos compreender.
Mas existe outro véu.
Não aquele que encobre um monstro.
Nem aquele que esconde uma prisão.
O véu de uma Noiva.
E o Apocalipse, que tantos imaginam ser apenas um catálogo das coisas terríveis que ainda acontecerão, termina nos conduzindo a um casamento.
Aquele que prometeu escrever seu nome sobre os vencedores agora habita com seu povo.
Os servos contemplarão sua face.
E seu nome estará sobre suas frontes.
Talvez a revelação definitiva não seja a descoberta de quantas camadas possui a realidade.
Talvez seja o fim da necessidade de atravessá-las.
Porque, quando o último véu for retirado, não será para revelar mais um carcereiro, mais uma divindade local ou mais um trono escondido dentro de uma caixa.
Será para revelar a Noiva diante do Cordeiro.
E, finalmente, entenderemos por que a noite que antecede Todos os Santos jamais precisou pertencer às trevas.
O horror era apenas a sombra projetada sobre o caminho.
A porta nunca foi o destino.
O labirinto nunca foi o lar.
E o mistério maior não estava naquilo que se escondia atrás do véu...
Mas em Quem esperava do outro lado.
A última configuração não abre o Inferno.
Ela termina nas Bodas do Cordeiro.
E o Espírito e a Noiva dizem: Vem.
Apocalipse 22:17.

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