Muitos veem a semente na maçã, poucos veem a maçã na semente. Recentemente, relendo "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?", de Philip K. Dick, fui levado a refletir sobre algo que vai muito além da ficção científica. No romance, uma ovelha artificial pode ocupar o lugar de uma ovelha verdadeira. Memórias podem ser implantadas. Emoções podem ser ajustadas por máquinas. A pergunta parece inevitável: se algo produz os mesmos efeitos, qual é a diferença? Vivemos em uma época estranha.
Fotografias podem ser geradas por algoritmos. Vozes podem ser sintetizadas. Relacionamentos são mediados por telas. Remédios podem alterar não apenas o corpo, mas também desejos, impulsos e estados de espírito. Aos poucos, a linha entre o natural e o artificial parece se tornar cada vez mais tênue. Mas existe uma diferença entre parecer e ser. Uma ovelha elétrica pode imitar uma ovelha. Uma memória falsa pode parecer verdadeira. Uma emoção induzida pode ser sentida com intensidade genuína. Entretanto, nenhuma dessas coisas altera sua natureza. Talvez o grande dilema do homem moderno não seja distinguir o verdadeiro do falso, mas lembrar que existe uma verdade que independe da nossa percepção. A fé cristã faz uma afirmação radical. Cristo não é verdadeiro porque acreditamos nEle. Ele é verdadeiro independentemente da nossa crença. A realidade não se curva à nossa convicção; nossa convicção é que deve se curvar à realidade. Por isso, quando Cristo pergunta: "Qual é mais fácil? Dizer: Os teus pecados estão perdoados, ou dizer: Levanta-te e anda?", Ele está apontando para algo invisível por trás do visível. Todos viram o paralítico andar. Poucos perceberam quem estava diante deles. É comum enxergarmos apenas os frutos. Mais raro é enxergarmos as raízes. Muitos viram um carpinteiro da Galileia. Poucos viram o Filho de Deus. Muitos viram uma cruz. Poucos viram o Cordeiro. Muitos veem a semente na maçã. Poucos veem a maçã na semente. Talvez a sabedoria comece justamente quando aprendemos a olhar além da superfície das coisas e passamos a perguntar não apenas o que parece real, mas o que é real. Porque há uma diferença entre a sombra e a substância. E somente uma delas permanece quando todas as ilusões desaparecem.

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