Há uma diferença brutal entre
existir e sustentar a existência.
Nós existimos. Cristo, além de existir, susteve. E susteve justamente quando tudo parecia inclinar-se para o colapso. A cruz não foi apenas o suplício de um homem justo. Foi o ponto em que o próprio fundamento da realidade entrou na ferida do mundo sem permitir que o mundo se desfizesse com Ele.
Por isso a cena do Calvário é
maior do que a dor física, ainda que a dor física tenha sido terrível. Antes da
madeira, houve o suor de sangue. Antes do grito, houve o peso. Antes da morte,
houve uma compressão de alma que palavra alguma descreve por inteiro. O Cristo
não apenas sofreu. Ele suportou, em santidade, uma densidade de ser que nenhuma
criatura poderia carregar sem ser desintegrada.
O céu escureceu. A terra
respondeu. O véu rasgou. Sepulturas se abriram. A criação inteira pareceu
estremecer porque Aquele por meio de quem todas as coisas subsistem estava
sendo pregado por mãos de barro. E, ainda assim, tudo continuou existindo. Eis
um dos pensamentos mais assombrosos da fé cristã. O Crucificado não deixou de
sustentar a realidade enquanto era crucificado por ela. Ele sofreu sem
abandonar o cosmos ao caos. Ele padeceu sem largar o eixo do mundo. Ele
sustentou o insustentável.
Talvez por isso a cruz seja um
escândalo tão absoluto. Não se trata apenas da morte do inocente. Trata-se da
submissão voluntária do Verbo à humilhação sem deixar de ser o Verbo. O mesmo
que disse haja, agora recebe cuspidas. O mesmo por quem os astros permanecem em
seus cursos agora tem as mãos perfuradas. O mesmo que chamou Lázaro para fora
do túmulo agora entra no território da morte. E nada disso é teatro. Nada disso
é metáfora vazia. É o peso real do ser, comprimido até o limite do excruciante.
Uso aqui, de forma proposital,
a palavra excruciante em seu duplo alcance. Ela fala da dor extrema, mas também
carrega em si a lembrança da cruz. O peso do ser, em Cristo, não é apenas
ontológico. É cruciforme. O ser, nEle, não aparece como abstração filosófica,
mas como fidelidade absoluta sob sofrimento absoluto. O Ser não apenas é. O Ser
ama. O Ser permanece. O Ser sustenta. O Ser se entrega.
Existe, sim, um eco distante e
invertido daquele famoso problema moderno da leveza e do peso da existência.
Mas aqui não se trata da leveza insustentável do ser humano lançado ao acaso, à
contingência e ao vazio. Aqui se trata do excruciante peso do SER em sentido
mais alto. Não o ser frágil da criatura que hesita, mas o SER que diz EU SOU e,
mesmo assim, aceita entrar na história, vestir carne, tabernacular entre nós e
carregar a densidade inteira da redenção sem negar a própria santidade.
Há quem imagine a criação como
um evento do passado, algo encerrado em Gênesis, como se Deus tivesse apenas
dado corda ao universo e se afastado. Mas a cruz corrige essa fantasia. O Deus
bíblico não apenas cria. Ele sustenta. A realidade não é uma máquina autônoma
que segue sozinha. Ela depende, a cada instante, da vontade viva de Deus. Se
essa sustentação cessasse, não haveria explosão, ruína ou fumaça. Haveria o
nada. Simplesmente o nada.
Talvez uma analogia imperfeita
ajude. Um livro continua existindo mesmo se o autor humano enlouquecer, adoecer
ou morrer. Mas o universo não é um livro largado numa estante. Ele se parece
mais, guardadas todas as limitações da comparação, com uma computação contínua
em escala absoluta. Se um único bit corrompido pode derrubar um sistema, o que
dizer da realidade inteira, do macro ao micro, do visível ao invisível? Deus
não é uma CPU, evidentemente. Ele não é mecanismo, circuito ou matéria. Mas a
analogia ajuda num ponto: tudo permanece porque Ele sustenta. Tudo segue porque
Ele quer. Tudo é porque Ele é.
E então a cruz se torna ainda
mais terrível e mais gloriosa. Aquele que sustenta todas as coisas aceita
sofrer dentro daquilo que sustenta. O Autor entra no livro. O Fundamento pisa o
chão que Ele mesmo mantém. O Verbo entra na frase. O Oleiro toca o barro por
dentro. E quando o peso chega ao auge, quando o abandono ressoa, quando a carne
fraqueja, quando o mundo parece prestes a quebrar, Ele não larga. Ele vai até o
fim.
Está consumado não é o suspiro
de alguém vencido. É a declaração de quem suportou até a última gota sem
abandonar a obra, sem negar o Pai, sem romper consigo mesmo, sem deixar a
criação cair no abismo. É a frase do Cristo que sustentou o insustentável.
Talvez seja isso que mais
humilha o nosso orgulho e mais consola a nossa miséria. Nós mal conseguimos
sustentar a nós mesmos. Mal conseguimos manter coesa a própria alma. Somos
rachados, dispersos, instáveis. Mas o Cristo, sob trevas, sangue, vergonha, abandono
e morte, continuou sendo quem é. Continuou amando. Continuou obedecendo.
Continuou sustentando.
O excruciante peso do SER não
é apenas uma reflexão sobre dor. É uma revelação sobre quem Deus é. Ele não é
um ser entre outros. Ele é o EU SOU. E quando esse EU SOU entra na história e
aceita a cruz, a cruz deixa de ser apenas instrumento de execução. Ela se torna
o lugar onde vemos, ao mesmo tempo, a gravidade do pecado, a densidade da
glória e a fidelidade de um Deus que sustenta o mundo enquanto sangra por ele.
É por isso que a redenção não
pode ser tratada como plano de contingência ou remendo tardio. Ela é mais
profunda. Se tudo veio por meio do Verbo, e o Verbo entrou no mundo, então a
redenção não é um plano B. É o próprio Criador entrando naquilo que chamou à
existência, sem deixar que o ser naufrague, para trazer de volta, pela cruz,
aquilo que jamais poderia voltar sozinho.
Na cruz, o mundo não viu
apenas sofrimento.
Viu sustentação sob
sofrimento.
Viu fidelidade sob
esmagamento.
Viu o SER carregando o peso de tudo sem deixar tudo cair.

Graças ao Deus Pai, que revelou o Seu amor a nós através de Seu Filho Amado, Jesus Cristo, glória, louvor por toda eternidade somente a Ele
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