O mundo que habitamos não
começou em Roma, nem em Manhattan. Começou num som antigo, abafado, como água
batendo por dentro das paredes do tempo. Começou no dilúvio e antes dele,
quando o Apocalipse já tinha passado pela terra uma vez, não como filme do fim,
mas como limpeza brutal, como pano encharcado passando no rosto da história. Os
gigantes e os homens de renome foram varridos. O mundo foi desligado e ligado
de novo. A luz voltou, mas voltou diferente, com um zumbido por trás. Desde
então vivemos na espiral.
Não em linha reta. A espiral sobe e repete. Terceira,
quarta volta, quem sabe. Pós, pós, pós apocalípticos. Caminhamos por cima de
ruínas que não lembramos. Fazemos cidades como quem assobia para não ouvir o
que está embaixo. E para mover essas cidades, nós queimamos os antidiluvianos.
É isso mesmo. Queimamos passado compactado, vida esmagada por eras, lama antiga
virando combustível. O motor do mundo é uma fornalha de mortos. O carro anda. O
avião sobe. A fábrica canta. E a canção é feita de ossos moídos no silêncio de
milhões de anos. A civilização bebe dos mortos e finge que é só progresso. Mas
os mortos não são todos iguais. Há os que clamam debaixo do altar. Esses não
são queimados. Esses não viram energia de máquina. Eles estão guardados, como
brasas em braseiro, esperando o tempo do Cordeiro. Não são resíduos. São
testemunhas. Eles não pedem vingança como quem quer sangue, pedem justiça como
quem quer ordem. Estão sob o altar porque pertencem ao culto, não ao mercado.
Eles são a prova de que existe valor que o mundo não consegue comprar. E há os
outros. Os que ficaram nas ruínas. Os que não subiram, não atravessaram, não
foram levados. Esses viraram carniçais do invisível. Papa-figos de significado.
Cães guardando ruínas. Eles não comem carne. Eles comem pó. Comem cascas. Comem
conchas vazias. Comem aquilo que sobra quando o homem vai morrendo por dentro.
Porque Adão começou a morrer no dia em que caiu. A morte não foi um
acontecimento, foi uma infiltração. Entrou como água por fresta e foi enchendo
a casa inteira, cômodo por cômodo. A partir dali, o homem virou uma casa com
porão. E o porão nunca fica vazio. Lewis viu isso. Não precisou chamar de
demônio, nem de mito, nem de psicologia. Ele chamou de Grande Divórcio, e
acertou. A alma pode ter muitas cascas. Casca de orgulho. Casca de vício. Casca
de memória quebrada. Casca de medo. Casca de mentira bem contada para si mesmo.
Uma pessoa pode virar uma coleção de cascas que falam. Mas se você sopra, e lá
dentro existe luz, existe chama, então ainda há esperança. A esperança é esse
calor teimoso que não aceita virar cinza. Agora, se tudo o que sobra é cinza, se
tudo o que sobra é concha oca, não há o que fazer, porque ali reina Abaddon, o
Destruidor, o senhor da decomposição, o dono da ruína. Abaddon não cria nada.
Ele administra o colapso. É por isso que o domínio que vale não é o território
das cidades nem o poder dos impérios, nem o ouro, nem o crédito, nem o bitcoin,
nem o nome no alto de um prédio. O domínio que vale é a alma. A alma é a única
coisa que tem valor por si mesma. E por isso a última guerra é por ela. Não é
metáfora. Não é figura de linguagem. É lógica. O que daria o homem em troca de
sua alma. O mundo oferece o mundo inteiro, e ainda assim não consegue recomprar
uma alma perdida. Os Perpétuos não são esses carniçais. Não são o mesmo tipo de
coisa. Os Perpétuos são nobres, aristocratas do mundo arca-áico, as forças que
existiam antes do nosso jeito de pensar. Eles já se disfarçaram de deuses do
Olimpo, de titãs do Tártaro, de mitos, de personagens, de sonhos coletivos. E
quando a modernidade tentou matar o mito, eles não morreram. Eles só trocaram
de roupa. Eles não reinam em templos. Reinariam hoje na imaginação. No teatro
interno. No espaço entre um pensamento e outro. Entre uma palavra sem símbolo
de um infante que ainda não fala. Entre uma palavra esquecida de um velho que
já não sabe o que tudo significa e se perde em memórias como corredores
escuros. Eles moram no intervalo, porque o intervalo é onde a alma decide sem
perceber que decidiu. Eles estão em Parnassus.
Monte da inspiração. Lugar de musas, profecia e arte. Eles estão nesse
território que não é geografia, é atmosfera. E estão também no circo, naquele
circo que não é lona nem palhaço, mas a velha mediação pública do mistério, o
mundo onde o sobrenatural ainda tinha palco. Esse mundo do circo acabou com
Little Boy. Acabou quando o símbolo foi substituído pelo átomo. Quando o
projeto Manhattan mostrou que o homem podia acender um sol na terra e destruir
uma cidade em um clarão branco. Ali o mundo mudou de tom. A música ficou mais
fria. O espiritual não desapareceu, mas foi empurrado para dentro. Para o
subterrâneo da alma. Para a arte. Para o inconsciente. Para as frestas. Para os
sonhos. Para aquilo que ninguém controla com decreto. O dinheiro, nesse
cenário, virou mecanismo e não sacramento. Ele serve para facilitar o comércio,
mas quando vira amor, vira idolatria. Quando vira fim, ele come o homem por
dentro. Cristo não morreu por moedas nem por empresas. Cristo não foi pregado
numa cruz para proteger carteiras. Ele morreu por almas. E o único tesouro que
não se deprecia é o investido na eternidade. O resto é pó. Territorialistas
comem pó. Abaddon governa o pó. O mercado negocia pó como se fosse ouro. O
império constrói sobre pó como se fosse pedra. E o homem, se não vigiar, vira
pó antes de morrer. Mas o circo espiritual acabou e o fogo não cessou. O fogo
não precisa de lona. O fogo não precisa de palco. Dentro do soma há chama. No
coração simbólico, no meio do peito, há um calor que não vem de pensamento, vem
de centro. No alto, há claridade, não como truque, mas como acesso. Não é
gnose. Não é cabala. É cristianismo simples, puro, antigo. O Reino não entra
pelos olhos como espetáculo. Ele entra pelo coração como verdade. E é por isso
que, mesmo com cascas, eu digo sem vergonha e sem teatro: eu estou pegando
fogo. E onde há fogo, há Presença. E onde há Presença, ninguém esteve só.

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