quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não foi feito do que é visível...

Pela fé entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de modo que aquilo que se vê não foi feito do que é visível. - Hebreus 11:3

Num determinado momento da fábula de Antoine Saint-Exupèry, 'O Pequeno Príncipe', a Raposa diz ao Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos”. Ela poderia estar falando do nosso universo, onde o essencial também é invisível aos olhos. Para estudarmos corpos celestes distantes, temos que “vê-los” de alguma forma: astrônomos coletam a radiação eletromagnética — a luz visível, infravermelho, ultravioleta — emitida pelas estrelas e galáxias para, então, analisar as suas propriedades: composição química, movimento, distância. A partir dessa radiação coletada estudamos, por exemplo, o movimento e a distribuição das galáxias no Universo. E é aí que as surpresas começam.

 Já na década de 1930, o astrônomo Fritz Zwicky, observando galáxias nos chamados aglomerados — grupos de galáxias, às vezes milhares delas, que se mantêm juntas devido à sua atração gravitacional —, concluiu que as suas velocidades eram altas demais para que só houvesse matéria “visível”, isto é, a que emitia luz visível. Zwicky conjecturou que deveria existir algum tipo de matéria “escura”, de forma que sua massa extra causasse o aumento nas velocidades.
Nas décadas seguintes, observações confirmaram a descoberta: galáxias individuais giram mais rápido do que devem e distorcem o espaço à sua volta de forma mais dramática do que se tivessem apenas matéria luminosa. O mais chocante é que a matéria escura tem uma composição completamente diferente da matéria comum, da qual somos feitos. Todas as estrelas, planetas e pessoas são compostas de átomos, que, por sua vez, são feitos de prótons, elétrons e nêutrons. A matéria escura não. O problema é que não sabemos do que é feita.

O mistério aumentou em 1998, quando dois grupos de astrônomos mostraram que o Universo está em expansão acelerada. As galáxias são carregadas como rolhas num rio. Quando se calculou a quantidade dessa “energia escura” necessária para explicar as observações, o choque foi geral: deve contribuir com 70% da matéria e energia que preenchem o Universo. Juntando com os 25% de matéria escura, sobram apenas 5% para a matéria comum. Vivemos numa era interessante, na qual sabemos a contribuição dos ingredientes para a receita cósmica, mas não o que são eles. O essencial não só é invisível, mas misterioso.

* Professor de física e astronomia do Dartmouth College, nos EUA. É vencedor de dois prêmios Jabuti e seu mais novo livro chama-se Criação Imperfeita